Torres. Em 1826 havia na Colônia de São Leopoldo certos “avulsos” solteiros que perturbavam a ordem e o governo decidiu levá-los para o Presídio de Torres, para dar início a uma colônia no litoral norte, onde à época existiu idéia de implantar um porto. Oitenta e seis famílias e 24 avulsos saíram de São Leopoldo para Porto Alegre, venceram em lanchões o rio Capivari e depois em 16 carretas, chegaram a Torres em 17.11.1826, data da fundação da Colônia.
Foram separados por credo. Os 237 evangélicos, munidos do pastor Carlos Voges, foram assentados no vale Três Forquilhas, distante oito léguas de Torres. O pastor foi guia e professor, cuidou dos Livros Tombo, e quando o Império cortou seu ganho de 300$00 réis anuais, atuou como vendeiro e com alambique de aguardente,
Os 184 católicos ficaram em São Pedro das Torres, atendidos pelo padre luso local, que não falava a língua alemã, mas realizava casamentos e dava absolvição coletiva. A localidade passou a se chamar de São Pedro de Alcântara em 1847, quando da visita de Dom Pedro II, que na ocasião doou 500$000 réis para as obras da capela local.
O auxilio de 160 réis no primeiro ano exauriu-se à espera da demarcação dos lotes rurais, de 77 hectares. Cada família recebeu animais (um cavalo, duas éguas, uma vaca), três enxadas, machado e foice, além de uma panela. No segundo ano, recebendo 80 réis per capita, deviam vencer obstáculos, plantar, colher e gerir condições de auto-manutenção.
Distantes 200 quilômetros do centro consumidor, careciam de vias de transporte para colocar excedentes agrícolas. Do isolamento decorreu o abandono das terras. Famílias e solteiros, artesãos e militares principalmente, retornaram a São Leopoldo ou se espalharam pela Província. A família Niederauer buscou Santa Maria, depois que, em 1827, nasceu João Niederauer Sobrinho, mais tarde oficial na Guerra contra o Paraguai.
A dificuldade econômica foi secular. Tentativas de destilaria para trabalhar a cana plantada, esbarraram no problema crônico de falta de transporte. A chegada de BR 101, em 1950, trouxe alguma melhoria à região, mas em 1970 não havia ainda rede elétrica.
O longo isolamento geoeconômico de São Pedro de Alcântara e Três Forquilhas afetou também o aspecto cultural, aclimatando-se os moradores com os nativos, com mescla de tradições culturais expressa, por exemplo, na alteração da grafia de sobrenomes (Meyer para Maia, Schlitzer para Silestre, Kreuzburg para Krás Borges). Dos lusos houve assimilação do Terno de Reis, comemorado, entre 1925-50, com banda de música e sua tradicional cantoria (Porto, 1934, p. 89-93; Ely, 1996).

Flores, Hilda Agnes Hübner, História da Imigração Alemã no Rio Grande do Sul – Est Edições – Porto Alegre 2004 – p. 32.

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