3. A COLÔNIA TRÊS FORQUILHAS

Quando os alemães chegaram em Torres, não se cogitava de localizar quaisquer deles no Vale dos Três Forquilhas. Equivocados, portanto, os historiadores que afirmam premeditada a separação radical dos protestantes, bem como os que narram a vinda destes diretamente de Porto Alegre para aquele vale. Segundo o projeto original em execução, todos protestantes e católicos seriam instalados na margem do Rio Mampituba com apoio na Glória onde estava uma guarnição de soldados guaranis, defensiva contra os bugres, e onde ficariam o policiamento, a escola, o templo evangélico, etc.
Naquele fim de ano de 1826 choveu muito, o Mampituba alagou suas margens e a demarcação se atrasou. Os imigrantes acampados em Torres começaram a ficar impacientes: alguns quiseram voltar a São Leopoldo ou Porto Alegre. Só no verão de 1827, meses depois, é que se efetuaram as demarcações. O agrimensor Frederico Carlos Voges também era alemão, buscado em São Leopoldo especialmente para servir de “ajudante de corda” (auxiliar) do “\piloto” (agrimensor oficial) de Santo Antonio da Patrulha, João José Ferreira. O duro trabalho de abrir picadas no mato foi feito por uns poucos sentenciados à disposição do comando e por 40 colonos que se revezavam a cada domingo. Na escolha dos lugares surgiam divergências.
A terra era baixa e sujeita a enchentes, pelo gosto dos alemães, havia mato e banhado demais. Ao próprio Inspetor Francisco de Paula Soares, que tinha imaginado receber só uns 200 colonos (e não o dobro), pareceu ser pouca a terra, por quanto não lhe era lícito atravessar o Mampituba e invadir a província de Santa Catarina.
A insatisfação geral criou impasse. O Ten.Cel Soares mandou a Porto Alegre o agrimensor Voges com proposta de dividir os colonos em dois grupos, sugerindo algumas alternativas. De lá veio a solução do governo: no Mampituba só permaneceriam os católicos, para ficarem ao alcance imediato da Capela de São Domingos; quanto aos protestantes que estavam acompanhados de um pastor e de um médico próprios – os imigrantes Carlos Leopoldo Voges e Jorge Elias Zinkgraff – seriam acomodados nas margens férteis, mais distantes, do Rio Três Forquilhas.
Em 27-05-1827, o agrimensor João José Ferreira e seu ajudante Voges demarcaram lotes em ambas as margens daquele rio. E logo em junho as famílias protestantes começaram a deslocar-se para lá, usando carretas que arrendaram a 4 mil réis cada (três famílias por carreta). Seguiram pela estrada do campo (hoje Rota do Mar) até a Sanga do Cornélios e dali, através da Terra de Areia, até o destino.
Nesse meio tempo o Inspetor Soares chegou da Capital, onde fora buscar instruções; mesmo adoentado, sorteou os lotes aos colonos e providenciou que viajassem os que ainda aguardavam. Em agosto de 1827 completavam os protestantes seu assentamento regular. Em dezembro tomaram a iniciativa ao Governo do Império, em francês, uma carta de agradecimento em que diziam orgulhosamente: “há alguns meses que somos proprietários desta bela zona e plantamos o que queremos – frutas e hortaliças, tanto, as do Brasil, quanto à da Europa”.
A colônia Alemã de Três Forquilhas tinha sido a primeira a se estabelecer.

Ruschel, Ruy Ruben, Torres Origens – 3ª edição – Maio/junho 2003

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